O Mo Gun (ou O Lar)

Mo significa guerra. Gun significa recinto. Muitas vezes eu li isso como “local onde se trabalha a guerra”. Sendo os Mo Gun domínios de Famílias-Kung Fu praticantes de artes marciais, essa tradução faz sentido.

Eu passo mais tempo no Mo Gun do que em casa. E sempre que falo com minha mãe sobre Kung Fu noto que ela, curiosamente, não vê em mim a figura de um lutador. E mais do que isso, ela não dá a mínima sobre se eu sei ou não lutar (e sempre faz piadas sobre eu só ir lá para tomar chá)

Primeiro eu via isso como um certo desinteresse da minha mãe sobre algo tão importante para mim. Mas percebi que, na verdade, ela é a mais interessada no que de fato é mais importante na minha vida, a forma como eu vivo. Se eu luto ou não, isso não faz muita diferença na minha vida.

Uma vez fiquei um pouco surpreendido pela forma como Si Fu traduziu, e tem traduzido desde então, o termo Mo Gun. Ele chamou de Casa da Família-Kung Fu.

Não sei se conseguirei explicar isso a minha mãe, mas fico feliz por Si Fu ter me ajudado, com essa nova tradução, a renovar meu entendimento sobre o que faço eu e todos que me acompanham passando tanto tempo no Mo Gun. Percebi que nós estamos aprendendo a viver.

É muito justo traduzir como casa da família Kung Fu, por que o papel da família, qualquer que seja, é ensinar a viver.

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A caminho da leveza

Hoje foi o encerramento do ano para os núcleos da MYVT do Clã Moy Jo Lei Ou. Nos reunimos para tomar café no Dona Chica, um dos restaurantes de nosso novo endereço no Condomínio O2 Offices. Após o café visitamos o Mo Gun e Si Fu entregou os nomes Kung Fu de Pedro Oliveira e meu Si Hing, Fernando Xaver. Mas deixarei meus irmãos kung fu registrarem essa última parte. Voltemos ao café:

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Meu Si Fu, mestre Julio Camacho, fazendo suas considerações no café de encerramento

Começamos com um compartilhamento de cada membro presente. Si Fu nos orientou a expor nossas impressões de 2017 e, principalmente, perspectivas para 2018. Vi o evento como uma alinhamento, uma sintonizador para começarmos mais um novo processo.

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Novo endereço do Mo Gun, Condomínio O2. Como Si Fu disse, um lugar mais arejado para nossa família (Esse O2 no nome não é por acaso).

Tentando recordar o que foi dito hoje, a palavra que não sai da minha cabeça é leveza. Si Fu destacou essa característica do novo Mo Gun e como isso é reflexo de nosso novo processo, onde tudo será mais leve. Isso será muito bom para nossa família. Muitas vezes vi a mim e aos meus irmãos Kung Fu nos desgastando desnecessariamente para alcançar algum objetivo. No alto nível de Kung Fu, os resultados são muito mais potentes e aparecem sutilmente, sem esforço. Essa nova perspectiva para nossa família é algo que busco há tempos, me alegrei por escutar isso de Si Fu.

 

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Registro do café de encerramento do ano de 2017.

Isso é fruto de 25 anos de trabalho de Si Fu. Como ele disse, o bambu chinês leva anos para desabrochar, mas quando menos se espera, ele desabrocha e cresce rapidamente. Depois de 25 anos, Si Fu, como ele disse mais cedo, está vendo vários pontos de desabrochamento. Ele também adicionou que estamos em uma das fases mais significativas da história de nosso sistema. Confesso que não enxergo totalmente a perspectiva dele ainda, apenas uma parte. Mas é o bastante para me manter ainda mais animado ao pensar em nosso futuro.

Trabalhando após o encerramento
Clayton, eu e Iuri. Trabalhando após o encerramento.

Same way, a new path.

One of the good things about the last Barra Branch’s moving was the access to more open areas. I walked with Si Fu in his condominium (right next to Mo Gun) while we talked about management. Can you see the path in the photo above? That’s what Si Fu asked me. I was able to distinguish a line, but it was certainly not an open used route. That was exactly what Si Fu said next.

A path is revealed.
He said people abandon the path when you don’t take care of it. And our job at Barra Branch is to keep it under proper conditions. The better of the path, the richer and the experience of those who walk. Curiously, It didn’t occurred to me at the tima, but To Dai, the term we translate as a “disciple” here in Brazil, literally means To Walk Together!
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As I meditated about this post, I was walking down this path to take breakfast with Si Fu.

Very soon Barra Branch will be moving to another adress, same neighbourhood, still next to Si Fu’s house. Personally, I’m very excited with it. The greatest revolution of my life occurred due to our last moving. The path is always the same, but it’s building our path that Kung Fu grows.

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Si Fu e eu. Preparando a nova trilha!

 


 

Uma das coisas boas da última mudança do Núcleo Barra foi termos acesso a mais áreas abertas. Eu caminhava com Si Fu em seu condomínio (ao lado do Mo Gun) enquanto falávamos sobre gestão. Você consegue ver o caminho na foto acima? Essa foi a pergunta que Si Fu me fez. Eu consegui distinguir um traçado, mas certamente não era um caminho muito utilizado. Foi exatemente disso que Si Fu falou em seguida.

A trilha se revela.

Ele falou que as pessoas abandonam a trilha quando não se cuida. E nosso trabalho no núcleo é de a manter em condições adequadas. Quanto melhor for a trilha, mais rica a experiência de quem caminha. Curiosamente, não pensei nisso na hora, mas To Dai, o termo que traduzimos como discípulo aqui no Brasil, significa, literalmente, Caminhar Junto!

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Enquanto eu refletia sobre essa postagem, caminhava por essa trilha e seguia para tomar café com Si Fu.

Muito em breve vamos mudar para outro Núcleo, ainda ao lado do Península, ainda ao lado da casa de Si Fu. Pessoalmente, estou muito empolgado. A maior reviravoltade minha vida ocorreu em uma mudança de Núcleo. O caminho é sempre o mesmo, mas é construindo nossa trilha que se contrói o Kung Fu.

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Si Fu e eu. Preparando a nova trilha!

Integrated Meetings

Integrated Meetings

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Center: Master Julio Camacho. From left to right: Pedro Ivo, Carlos Antunes, Thiago Pereira, Thiago Silva and me, André Almeida

Two years ago we were establishing the Moy Yat Ving Tsun Integrated Management in the Barra Branch, under the leadership of my Si Fu, Master Julio Camacho. At that moment, we’re still using a portuguese name, since we didn’t imagine the internationalization coming. This black and white photo, by my Si Hing Thiago Pereira marks his birth, July 16, 2015. We were two branches at the time, at Barra and Méier neighborhoods. Each one under the management of a Director and a Adjunct Director, in addition to the environment coordinators. The proposal was a rotatory directory, where many disciples would have their chance to contribute. Barra Branch has had three directors since that day.

In that first moment the meetings between us were weekly. It took 15, 20 or 30 minutes, something like that. Always on Thursday mornings, on the breakfast. Quite different from the hours meetings I was used to.

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Room where we established MYVTMI-Integrated Management. 

In our Family-Kung Fu Development Logic is more present than Model Logic. So it sounded a little strange to me the our meetings were so short. We timed, like 4 minutes for the opening, 7 minutes for each director, etc. I found the model a bit inflexible, but soon I’d integrated the logic.

The truth is: at that time I didn’t know much of my Si Fu’s Kung Fu. It was remarkable for me when he told that we cannot have prejudices. That we should recognize the benefits of the American Modeling way of doing things, when the chinese culture, basis of our Martial Art, were so opposite to it. And so he came up with the new proposal of weekly meetings, with weekly goals.

Today we hold daily meetings online. In those two years I tried to take the benefits of Model Logic, which bothered me so much at 2015. And I think deep down, I realize we’d never abandoned the Development Logic. We changed direction three times in Barra Branch, and we’re already moving to the third different address. I have seen so many management formats that I just can’t account. And I learned that the Kung Fu of our family is this, to adjust to each new moment. And great adjustments are coming ahead, since in addition to our present branches in Ipanema, Meier and Barra, at Brasil, we’ll open our doors in Angola, South Africa and the USA, very soon.

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At today meeting: Master Julio Camacho, Iuri Alvarenga, Claudio Teixeira and me.

 

Reuniões Integradas

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Sentado: Mestre Julio Camacho. Em pé, a partir da esquerda: Pedro Ivo, Carlos Antunes, Thiago Pereira, Thiago Silva e minha pessoa, André Almeida.

 

Há dois anos começamos a Moy Yat Ving Tsun Gestão Integrada no Núcleo Barra, sob a liderança de meu Si Fu, Mestre Júlio Camacho. Hoje, com nossa internacionalização a chamamos MYVTMI-Integrated Management. Essa foto em preto e branco, edição de meu Si Hing Thiago Pereira marca o seu nascimento, 16 de Julho de 2015. Éramos dois núcleo na época, Barra e Méier. Cada um sob a gestão de um Diretor e um Diretor Adjunto, além dos coordenadores de ambientes. A proposta era de a direção ser rotativa, e o Núcleo Barra já teve três diretores desde esse dia.

Nesse primeiro momento as reuniões entre nós eram semanais. Duravam 15, 20 ou 30 minutos, algo assim. Sempre nas quintas pela manhã, junto ao café. Bem diferente das reuniões de horas as quais eu estava costumado.

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Sala onde começamos a MYVTMI-Integrated Management

Na nossa Família-Kung Fu a lógica de desenvolvimento é mais presente que a lógica de modelo. Sendo assim, me soava um pouco estranho reuniões tão pequenas. Marcávamos o tempo, como 4 minutos para abertura, 7 minutos para cada diretor, etc. Achei o modelo  meio engessado, mas logo aderi.

A verdade é que naquela época eu não conhecia muito do Kung Fu de meu Si Fu. Foi marcante quando ele me disse que não podemos ter preconceitos. Que deveríamos reconhecer os benefícios do jeito modelar americano de fazer as coisas. E por isso ele surgia com a nova proposta de reuniões semanais, com metas semanais. Hoje fazemos reuniões diárias online. Nesses dois anos tentei tirar os benefícios da lógica de modelo, que me incomodava tanto. E acho que, no fundo, nunca saímos da lógica de desenvolvimento. Mudamos de direção três vezes no Núcleo Barra, e já estamos mudando para o terceiro endereço diferente. Vi tantos controles e formatos de gestão que perco a conta. Aprendi que o Kung Fu de nossa família é isso, ajustar a cada novo momento. E grandes ajustes vem pela frente, já que além de hoje sermos Núcleos em Ipanema, Meier e Barra, abriremos nossas portas em Angola, África do Sul e EUA em breve.

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Reunião de hoje pela manhã: Si Fu, Iuri Alvarenga, Cláudio Teixeira e eu.

 

Niklas Corrêa comes to Brasil

Niklas Corrêa comes to Brasil

Niklas Correa is one of Master Julio Camacho’s disciples who don’t live in Brazil. I think of his story as a great example of the Moy Jo Lei Ou Family’s Kung Fu.

I became a disciple together with him. Being my Si Hing (elder brother), he was the first to receive his Kung Fu name, Moy Lei Gah.

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Moy Sa, Moy Mei Da, Moy Lei Ga, Moy Gak Lou and Moy Mo Lei become disciples of Moy Jo Lei Ou.

His Baai Si happened under a peculiar situation. By 2014 Niklas was prepared to go to study in the USA. Si Fu then invited him to become a disciple. I found it a bit strange, since to be a disciple you had to walk along with your master in my understanding, but I know how much my master takes it seriously.

I believe most people used to see the discipleship as something to be earned. You should be special to get there. Master Júlio Camacho told me something totally different. For him discipleship was a bet. Then Si Hing Niklas’s moving left being a farewell to become a see you soon.

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Carlos Antunes, Thiago Silva, Master Júlio Camacho, Pedro Ivo and Niklas Corrêa.

In 2015 and 2016 Niklas returned twice to Brazil, where he had access the Advanced Level, Biu Ji. That’s when I felt that Si Fu’s bet worked well.

This August Niklas is in Brazil. I thought of our Baai Si when Si Fu gave him access to the Superior Inicial Level, Mui Fa Jong.

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Access to the Superior Inicial Level, Mui Fa Jong. Master Julio Camacho and Niklas Corrêa.

From now on things will change. Niklas will develop along with Si Fu a new format for online sessions by video conferencing. I get deeply moved to follow these moments of change when I had the opportunity to see the seed of this planted years ago. After all, discipleship was a keeper of the relationship.

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Leonardo Reis works with Niklas after his recent access.

Si Hing Niklas, congratulations for your new access. May we have a long journey together!


 

Niklas Corrêa vem ao Brasil


Niklas Correa é um dos discípulos de Mestre Julio Camacho que não moram no Brasil. Penso sua história como um exemplo do Kung Fu da família Moy Jo Lei Ou.

Eu me tornei discípulo junto a ele. Sendo meu Si Hing (Older Brother), ele foi o primeiro a receber seu nome Kung Fu, Moy Lei Gah. 

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Moy Sa, Moy Mei Da, Moy Lei Ga, Moy Gak Lou e Moy Mo Lei se tornam discípulos de Moy Jo Lei Ou.

Seu Baai Si foi feito sob uma situação peculiar. Em 2014 Niklas estava preparado ir estudar nos EUA. Si Fu então o convidou para se tornar discípulo. Achei um pouco estranho, mas sei o quanto meu mestre leva isso a sério. 

Acredito que a maior parte das pessoas via o discipulado como algo a ser merecido. Você devia ser especial para chegar até lá. Mestre Júlio Camacho me disse algo totalmente diferente. Para ele o discipulado era uma aposta. A viagem de Si Hing Niklas deixava de ser uma despedida e se tornava um até logo.

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Carlos Antunes, Thiago Silva, Mestre Júlio Camacho, Pedro Ivo e Niklas Corrêa.

Em 2015 e 2016 Niklas retornou duas vezes ao Brasil, onde acessou o Nível Avançado, Biu Ji. Foi quando senti que a aposta de Si Fu deu um bom resultado.

Nesse mês de agosto Niklas está no Brasil. Eu pensava no Baai Si quando Si Fu lhe deu acesso ao Nível Superior Inicial, Mui Fa Jong.

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Acesso ao Nível Superior Inicial, Mui Fa Jong. Mestre Julio Camacho e Niklas Corrêa.

Daqui para frente as coisas vão mudar. Niklas vai desenvolver junto ao Si Fu um formato para sessões online, por vídeo-conferência. Me emociona profundamente acompanhar esses momentos de mudança quando tive a oportunidade de ver a semente disso ser plantada anos atrás. Afinal, o discipulado foi um protetor da relação.

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Leonardo Reis trabalha com Niklas após seu recente acesso.

Si Hing Niklas, parabéns pelo seu novo acesso. Que tenhamos uma longa jornada juntos!

Master Júlio Camacho’s management style

 

Si Fu caminhando com Si Taai Gung
Master Júlio Camacho and Patriarch Moy Yat.

I remember a Saturday morning when I met Si Fu at his house. I was touched by something he said as we walked to the breakfast. Si Fu explained to me that when he assigns a role to someone, he chooses a person who has a skill he don’t have. Thus, in addition to being able to perform the task better than he could, it gives Si Fu the possibility to use his Kung Fu experience to develop the person’s specific ability.

I left the breakfast very excited about my conversation and immediately started the plans to set up the Barra Branch management team.

 

I don’t know if I’m a controlling person (in the sense of someone who don’t risk yourself at unknown scenarios), but it was not easy to set up this team. Different from business relationships, in the Moy Jo Family it’s common for affection to speak louder than commitment. This happens because, for the development of Kung Fu, it’s necessary to the relationships to be disobliged . This basically unfolds in two ways: either the practitioner relies on his affections to don’t fulfill possible commitments he may assume with his Si Fu and kung fu siblings or he may achieve a  performance much more effective than he would in other areas of his life.

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The masters Felipe Soares and Úrsula Lima, wich were initiated in the Ving Tsun System under the tutelage of Master Julio Camacho.

For me, it is difficult to delegate certain functions at the risk that other people do not do it with adequate quality. And that’s another reason for me to admire my Si Fu. He has a rare ability: To see the most hidden potential of each one and to wait for the disciple to develop it, not in preparation’s timing, but in a timing of war. Si Fu trains us to grow in the midst of real crises. He teaches us on the battlefield, risking his own life by allowing us to commit mistakes and always protecting us from heavier experiences than we can handle.

 

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Iuri Alvarenga, tutor and responsible for the financial’s management team of MYVTMI Barra Branch.

 


 

A Gestão de Mestre Júlio Camacho

Si Fu caminhando com Si Taai Gung
Mestre Júlio Camacho e Patriarca Moy Yat.

Lembro de um sábado pela manhã quando fui encontrar Si Fu em sua casa. Me chamou atenção algo que ele disse enquanto caminhávamos até o local do café da manhã. Si Fu me explicou que ao atribuir uma função a alguém, escolhe uma pessoa que possua uma habilidade melhor que a dele para tal função. Assim, além dela poder cumprir a tarefa melhor do que ele poderia, isso dá ao Si Fu a possibilidade de adicionar sua experiência em Kung Fu para desenvolver a habilidade específica da pessoa.

Saí empolgado do café e comecei os planos de montar a equipe do Núcleo Barra.

 

Não sei se sou uma pessoa controladora, mas não foi fácil montar essa equipe. Diferente das relações empresariais, na Família Moy Jo Lei Ou é comum que o afeto fale mais alto que o compromisso. Isso acontece porque para o desenvolvimento do Kung Fu é necessário que haja relações desobrigadas. Isso se desdobra em duas coisas, basicamente: ou o praticante se apoia nos afetos para não cumprir possíveis compromissos que venha a assumir com seu Si Fu e irmãos kung fu ou ele passa a cumprir de forma muito mais eficaz do que faria em outras áreas de sua vida.

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Mestres Felipe Soares e Úrsula Lima, que se iniciaram no Ving Tsun sob a tutela de Mestre Júlio Camacho.

 

Para mim, é difícil abrir mão de certas funções arriscando que outras pessoas não façam com qualidade adequada. Daí mais um motivo para admirar meu Si Fu. Ele possui uma habilidade rara: De enxergar o potencial mais oculto de cada um e aguardar que o discípulo o desenvolva, não em um tempo de preparação, mas no tempo da guerra. Si Fu nos treina para crescermos em meio a crises reais. Ele nos ensina no campo de batalha, arriscando a própria vida ao nos permitir errar e sempre nos proteger de experiências sano mais pesadas do que aguentamos.

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Iuri Alvarenga, tutor e responsável pela equipe de gestão financeiro da MYVTIM Núcleo Barra.

 

Primeiras impressões

Quando me dei conta, estava andando junto às pessoas mais estranhas. No meio das artes marciais há muitos estereótipos. Seja na forma de falar, no tipo físico ou nas vestimentas, não é muito difícil identificar os tipos de praticantes de artes marciais. Claro que é injusto que isso fique apenas na conta de um só grupo. Não é um fenômeno isolado. Ao contrário, músicos, pintores, jogadores de futebol, todos identificáveis por maneiras e jargões. Me pergunto o quanto disso faz parte de algo como uma natureza humana e quanto é culpa de uma certa tendência da qual meu mestre, Júlio Camacho, me alertou. Me refiro à tendência de criar modelos.

 

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Ator Gordon Liu interpretando Pai Mei. Na minha cabeça, mestres de kung fu eram uma versão amena dessa imagem. 

Quando conheci a Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence fiquei encantado. Era tudo que eu poderia esperar. Talvez mais! Mestre Thiago Pereira, à época diretor do Núcleo Méier, narrava com paixão que beirava o romantismo a riqueza do Sistema Ving Tsun. Após algumas semanas foi anunciado que mestre Júlio Camacho, meu mestre e responsável pelas atividades dos Núcleos Méier e Barra, nos faria uma visita, afim de convidar alguns membros a ingressar no Sistema Ving Tsun.

 

Na noite do convite, tomado pela ansiedade, fantasiei sobre o conhecimento que poderia adquirir desse mestre. Na minha cabeça, claro, ele era muito idoso e, no mínimo, possuía uma barba exótica. Uma espécie de sábio dos filmes de kung fu dos anos 70. Mas confesso que fiquei desapontado quando o vi entrar. E mais ainda quando começou a falar. Eu não consegui identificar nele nada que o associasse a grupo algum, se vestia de forma comum, falava de forma comum. Por algum motivo, isso me desagradou muito. Em certo momento, me vi perdido. Ainda que sem traços românticos, havia algo especial tanto na escolha de palavras tanto na forma como conduzia a conversa com os alunos.
Acabo de me dar conta de que foi nesse episódio que presenciei, pela primeira vez, uma demonstração de kung fu do meu mestre e onde começou minha admiração pela. 

 

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Mestre Sênior Júlio Camacho na Cerimônia de Titulação de Mestre Qualificado dos seus discípulos Leo Reis e Thiago Pereira.

Hoje estávamos no Núcleo Barra quando Mestre Júlio disse “Olhem uns para os outros e tentem encontrar características que os definam como membros de Ving Tsun. Não há! O nosso grupo é heterogêneo. Isso mostra que somos amadurecidos como praticantes.” E de fato, olhando para as pessoas a minha volta, senti um imenso orgulho. Idade, profissão, ambições, tipo físico, nada indicava semelhanças entre nós. Formávamos o grupo mais estranho. Absolutamente dessemelhante.

 

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Kung Fu é uma habilidade construída apenas através de experiências pessoais. Não há método que possa ser usado para se aprender. Por isso, qualquer pessoa é capaz de desenvolver Kung Fu. Depende apenas de se como ela explora seu próprio potencial. Essa ideia, que pode ser nomeada como inteligência marcial, está em toda a prática do Sistema Ving Tsun e não à toa aparece no nome de nossa escola. A solução para as mais diversas crises está em conseguir enxergar os benefícios que só podem passar existir por causa do problema (seja ele o soco de um agressor ou o volume alto da festa de seu vizinho).

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Mestre Sênior Júlio Camacho demonstrando a listagem de movimentos Mui Fa Jong na vila Gu Lo, sul da China.

 

Estudar Ving Tsun é muito mais rico junto a pessoas de diferentes estilos de vida. E pensando bem, parte do Kung Fu de meu mestre está na simplicidade como ele se apresenta. Graças a isso há diversidade em nossas escolas e a tendência dos alunos conseguirem acessar experiências significativas aumenta enormemente.

 

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André Almeida
Diretor do Núcleo Barra da Tijuca da MYVTMI
Discípulo de Mestre Sênior Júlio Camacho