Tijela e Hábito

Um dos meus maiores motivos de orgulho como praticante foi receber de Si Fu a logo dessa página. tradere, palavra do latim, significa “entrega, passar adiante” e dá origem a traditio, “tradição”. E decidi por esse título de forma espontânea, no Mo Gun, no momento em que notei que não queria seguir carreira acadêmica, meu caminho era como profissional de Ving Tsun.

Si Fu fez várias logos para as páginas de seus discípulos. Na foto, vemos a da página Alinhamento Marcial, de meu Si Hing Claudio Teixeira. Uma das mais interessantes, a meu ver.

Em nossa família usamos o termo Yi But Jan Chuen para nos referirmos à autêntica transmissão de um legado, o compromisso que um Si Fu assume para com um To Dai no momento do Baai Si. Diz-se que no passado, quando um monge budista estava próximo de sua morte, entregava a um discípulo escolhido dois de seus poucos pertences. Seu hábito e sua tijela de esmolar. Isso faz referência à tradição de apenas um discípulo herdar o conhecimento completo.

Jan Chuen significa “ensinamento autêntico”. Yi, “hábito”, “indumentária de um monge budista” e But, Tijela (de esmolar).

Lembro de ter demorado quase um ano para descobrir o que eram os ideogramas na logo que me foi entregue. Foi uma surpresa muito feliz quando consegui traduzir como Jan Chuen, o mesmo de Yi But Jan Chuen.

Diferentemente das antigas tradições citadas acima, meu Si Fu não prioriza um discípulo em função de outros. Não há sentido em transmitir tudo a apenas um. Isso atrapalha a própria propagação de nosso legado. Não há um principal discípulo. Mas normalmente, um grupo que está mais sintonizado. Claro, esse grupo varia com o tempo.

Há pouco tempo perdi a minha mochila. A usava todos os dias, mas fiquei feliz. A verdade é que eu não precisava carregar tantas coisas e ela era pesada. Então fui pesquisar bolsas carteiro.

Numa bela noite, Si Fu aparece no Mo Gun com uma bolsa que não usava há algum tempo.

“Aqui. Pra você. Conhece?”

Fiquei embasbacado. Não soube o que dizer nem como agradecer. Enquanto escrevo lembro de minha mãe indagando, em outra situação, há bastante tempo, a razão de Si Fu me dar “umas roupas velhas” dele. Ela não conhece, claro, a antiga tradição budista que citei. Mas principalmente, ela nem ninguém sabe da riqueza e da profundidade da Relação Si-To. Há muito afeto, ao menos de minha parte, em receber aquela bolsa por conta de todas as histórias que vieram com ela. Tantos momentos de tensão, de guerra. Tantos momentos mágicos, de uma alegria que única, tão especial que não ouso tentar descrever.

Saída do Mo Gun, no dia em que recebi a bolsa.

Na semana seguinte, todo orgulhoso com a bolsa, encontrei meu Si Fu. Minha primeira memória do dia é de ele me perguntando a razão da bolsa estar aberta.

“É que eu vou a abrir daqui a pouco mesmo”.

Então ele me disse que quando levamos um objeto do Si Fu, levamos também sua lógica.

“Quando eu inicio algo, eu o encerro. Se eu abrir, fecho”.

Sigo, então, com minha missão, ser mais um dos meus irmãos que assume para si representar meu Si Fu e seu legado.

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